Falavam durante horas. Todos os dias. Telefone e Internet....andaram semanas nisto, um avanço, um recuo, um avanço, um recuo...
Falavam de tudo, da Europa, o que os tinha levado aquele Sul do fim do Mundo, os amores vividos em vão, o recomeçar, o abandono, o sofrimento...pareciam precisar um do outro como pão para a boca. Ele hesitava. "Não podia ser, tanta coincidência, tanta necessidade de conversar, de estar seria docemente perigosa"...não estava disposto a sair de rastos mais uma vez, ou será que estava?
Tudo o que ouvia o fascinava. "É ela, só pode ser ela....não, não é não pode ser...acorda", mas não resistia, as suas palavras eram doces como mel. Andou nesta doce angustia durante semanas...
Um dia, seriam 2:00 da manhã, uma voz lhe diz:
"Anda a minha casa....". Parou, gaguejou e estremeceu...."onde, onde é ?"- Gritou de medo, alegria ou emoção, nem sabia bem explicar.
"Rua Washinton Luiz nº 44 , na Cidade Baixa".
"Sim...sei onde é... meia-hora lá estarei, vou levar um CD Morellembaum, pode ser?"
"Sim...estas á vontade."
Pegou na Vespa, enfiou o capacete e voou pela cidade.
Ao chegar, respirou fundo, viu se estava arranjado, subiu e tocou á porta.
O suor escorria-lhe do rosto, as mãos tremiam e ia mordiscando o lábio num sinal de evidente nervosismo. Abriram-lhe a porta e lá estava. Ela era bela, duma beleza triste alva,pele clara, olhos amendoados, lábios finos e delicados, esguia, andar de bailarina....
Ele seguiu-a...sentaram-se na sala, quase no escuro, não falavam sussurravam ao ouvido amarguras e dores passadas. Pegou-lhe na mão, acariciou-lhe o cabelo e disse simplesmente:
"És linda..."
Ela ficou sem jeito, ele sem jeito já estava. Ela sorriu para dentro, deixando no rosto as covinhas que o iriam deliciar ao longo do tempo.
Deitaram-se no chão no escuro, deram as mãos e ficaram em silêncio.
Ela disse:
"Sabes, preciso muito de um amigo....não te posso dar mais do que isso !!!"
"Sim...calculo que sim, também não preciso de mais do que isso"
Assim ficaram durante minutos.
Ele virou-se, acariciou-lhe o ventre passou-lhe a mão no rosto e num rasgo de coragem roubou-lhe um beijo e outro beijo...
Ela beijou-o. Sentiu o calor dos seus lábios, o calor da sua pele. Tinha sido um beijo timido, fugidio meio infantil até...mas tinha sido o beijo.
Abraçaram-se ternamente, num amor triste e infantil, num amor de choro. Ela disse simplesmente:
"É melhor ires embora...."
Ele saiu e regressou a sua casa, com a felicidade e o medo estampados em cada face do seu rosto.
Adormeceu feliz e acordou em paz. Ligou o PC e uma mensagem dizia:
" Quero muito ser tua amiga, não estou apaixonada por ti, por favor não te apaixones por mim"
Ele olhou, sorriu e disse para si:
" Não faz mal...vou-te ganhar, Sofia"
E começava uma história, que não se sabia onde terminava.
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