"Chega-se a ser grande por aquilo que se lê e não por aquilo que se escreve" JORGE LUIS BORGES
escritos de miséria
No rosto um vergão de dor
Nas mãos a marca de um presente amargo
Caminha lentamente
P'la rua nua, despida de cor
Na sarjeta donde se despeja o lixo do mundo
O velhaco rato espreita por mais um resto da humanidade
Quando a casa chega
Duas crianças ramelosas e de olhar esquivo
Saltam-lhe para os braços
e uma lágrima quase lhe salta do rosto
Tem o sabor do sal
Da dor
Do óleo negro que lhe corrompe o corpo...
E lhe queima a pele
No meio do mundo podre
Resta-lhe um único consolo
O sorriso da mulher amada
Pernas cansadas, braços mastigados pelo ardor dos dias
Carnes flácidas lhe pendem do corpo
Desajeitado, torcido, curvado pelo tempo
Mas do rosto ainda sai um sorriso
Beijam-se
Entre línguas e sem dentes
Do jantar
Sobrevive o pão que se vai transformar em vida
E olham-se num misto de carinho amargurado
Abraçam-se na busca da esperança
De uma vida
Que não há-de ser ingloria !
Assim que te quero
Ou é assim que eu te quero
Pela forma como te vestes
pela maneira como soletras o meu nome
Ai, aínda como arranjas o cabelo
Ou como a tua boca sorri
Agil, como a agua pura que corre
Sobre as pedras mais puras
É assim, e só assim que te quero
Mil e muitas formas de te querer
Nos dias doces que passam
Onde nada sei sobre a luz
Donde vem, nem para onde vai
Só quero que a luz me ilumine
Nem da noite quero explicações
Só a espero e só nela te envolvo
E assim...
Transformas-te
No meu pão e na minha luz
No meu alimento e no meu caminho
Sem sombras e sem dores
Chegaste á minha vida
Só com aquilo que trazias
E um pedaço de ti nos braços
Feita de luz, água e pão
E assim esperei
E assim te desejei
E só assim, simples, pura e terna que de ti preciso
E só assim que te amo
Amanhã vou dar ao Mundo
Uma folha da arvore do nosso amor
Que vai cair sobre a terra molhada
Donde há-de nascer a flor mais pura
Com a forma dos nossos lábios
Como um beijo caído
De alturas invencíveis
Donde há-de brotar ternura e fogo
Que tranforma
O nosso amor...
To someone...
Olhos
Estrelas incertas que em águas correntes ao mar vão beijar
Mais doces que a brisa, mais doce que o canto da noite que trova
Mais doce que a flauta que parte a solidão
Teus olhos castanhos, tão belos, tão puros de doce brilhar
São doces crianças, crianças gentis, engraçados que brincam a sorrir
São meigos infantes que brincam e saltam num jogo infantil
Inquietos, travessos - que causam tormento
Com beijos pagam a dor de um momento
Teus olhos castanhos, tão belos, tão puros de doce brilhar
As vezes brilham tranquilos, serenos, as vezes vulcão
Oh sim as vezes...derramam tão fraco, tão puro brilhar
A mim me parece que o mundo os falece
E os olhos tão meigos, que o choro humedece
Fazem-me chorar
Quer sejam saudades, quer sejam desejos
Eu amo os teus olhos que choram sem fim num pranto sem dor
Eu amo os teus olhos castanhos, tão belos, tão puros de doce brilhar
Teus olhos que expressam sem fim a doce harmonia
Que falam de amor com tanta alegria e tanto pudor
Eu amo esses olhos que falam de amor
Com tanta paixão.
S.
Por hoje ser hoje
Olhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou que achara
O par que a alma e a cara lhe pedia.
- E cada um de nós sonhou que o achara...
E entre nós dois
Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
... Se deu, e se dará continuamente:
Na palma da tua mão,
Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.
- Meu nome é Adão...
E em que furor sagrado
Os nossos corpos nus e desejosos
Como serpentes brancas se enroscaram,
Tentando ser um só!
Ó beijos angustiados e raivosos
Que as nossas pobres bocas se atiraram
Sobre um leito de terra, cinza e pó!
Ó abraços que os braços apertaram,
Dedos que se misturaram!
Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,
Sede que nada mata, ânsia sem fim!
- Tu de entrar em mim,
Eu de entrar em ti.
Assim toda te deste,
E assim todo me dei:
Sobre o teu longo corpo agonizante,
Meu inferno celeste,
Cem vezes morri, prostrado...
Cem vezes ressuscitei
Para uma dor mais vibrante
E um prazer mais torturado.
E enquanto as nossas bocas se esmagavam,
E as doces curvas do teu corpo se ajustavam
Às linhas fortes do meu,
Os nossos olhos muito perto, imensos,
No desespero desse abraço mudo,
Confessaram-se tudo!
... Enquanto nós pairávamos, suspensos
Entre a terra e o céu.
Assim as almas se entregaram,
Como os corpos se tinham entregado,
Assim duas metades se amoldaram
Ante as barbas, que tremeram,
Do velho Pai desprezado!
E assim Eva e Adão se conheceram:
Tu conheceste a força dos meus pulsos,
A miséria do meu ser,
Os recantos da minha humanidade,
A grandeza do meu amor cruel,
Os veios de oiro que o meu barro trouxe...
Eu, os teus nervos convulsos,
O teu poder,
A tua fragilidade
Os sinais da tua pele,
O gosto do teu sangue doce...
Depois...
Depois o quê, amor? Depois, mais nada,
- Que Jeová não sabe perdoar!
O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada...
Continuamos a ser dois,
E nunca nos pudemos penetrar!
Adão & Eva - José Régio
Z.
Reichskristallnacht - fuga da morte.
Leite negro da manhã bebemos ao cair da tarde
bebemos ao meio-dia e de madrugada bebemos à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma sepultura nos céus onde o espaço sobra
nesta casa mora um homem que cultiva serpentes e escreve
escreve quando cai a noite nach Deutschland
os teus cabelos de ouro Margareta
escreve e sai da casa e as estrelas todas chamejam
e assobia chamando os seus cães
e assobia chamando os seus judeus faz-nos abrir uma vala na areia
manda-nos tocar para a dançaLeite negro da manhã bebemos de noite
bebemos de madrugada e ao meio-dia bebemos ao entardecer
bebemos e bebemos
nesta casa mora um homem que cultiva serpentes e escreve
escreve quando a noite cai nach Deutschland
os teus cabelos de ouro Margareta
os teus cabelos de cinza Shulamite cavamos uma sepultura nos céus
onde o espaço sobraEle grita vocês aí cavem fundo a terra destinada e os outros cantem e toquem
ele puxa a espada que traz à cinta agita-a e os seus olhos são azuis
empurrem as pás mais fundo vocês aí e os outros que continuem
a tocar para a dançaLeite negro da manhã bebemos de noite
bebemos ao meio-dia e de madrugada bebemos ao entardecer
bebemos e bebemos
nesta casa mora um homem os teus cabelos de ouro Margareta
os teus cabelos de cinza Shulamite ele cultiva serpentesToquem mais doce a música da morte grita ele Morte é um capataz
aus Deutschland
ele grita arranhem mais negro esse violino e depois flutuem como fumo
nos ares
depois cavem uma sepultura nas nuvens onde o espaço sobraLeite negro da manhã bebemos de noite
bebemos ao meio-dia Morte é um capataz aus Deutschland
bebemos ao entardecer e pela madrugada bebemos e bebemos
Morte é um capataz aus Deutschland o seu olho é azul
dá-te tiros com balas de chumbo a sua pontaria certeira
nesta casa mora um homem os teus cabelos de ouro Margarete
atiça os seus cães contra nós dá-nos uma sepultura nos céus
cultiva serpentes e sonha Morte é um capataz aus
Deutschlando teu cabelo de ouro Margareta
o teu cabelo cinza Shulamite
Paul Celan (1920-1970) , pseudónimo do poeta Paul Antschel, judeo romeno.
Há 71 anos dava-se a Noite de Cristal (Kristallnacht), ou o pogrom que abriria caminho ao holocausto.
Od Slovensko s láskou
Dolinami cesta úzka,
nekľudná pieseň nechce ustáť.
Utíchol les, osirel háj, milému svojmu zbohom dnes daj.
Ref:Ak súdiť ťa chcú, nech súdia len,
tých čo neprajú pokoj duši boľavej.
Ak súdiť ťa chcú, nech vinia mňa,
to čo potajme nosím v srdci, nespália,
čo život rozdelí, smrť spojí na veky.
Aaaaaa.....
Škovránok hlávku k zemi kloní,
umrela pieseň na jabloni,
utíchol les, osirel háj, milému svojmu zbohom dnes dám.
Ref:
Aaaaaa.....
Nevolám ťa k sebe milý, nech ťa môj hlas nepomýli,
utíchol les osirel háj, na cestu dnes zbohom ti dám.
Tradução livre
Deixo aqui uma tradução menos google :-)
Beijo grande
Por caminhos a vales estreitos
A canção inquieta não sossega
A mata amansou, o arvoredo serenou,
Hoje digo adeus ao meu amor
Se querem julgar-te, que julguem a vontade
Aqueles que não querem a paz à alma sentida
Se querem julgar-te, que culpem a mim
Já mais queimarão o segredo que carrego no coração
O que a vida divide a morte reunirá para sempre
O rouxinol baixa a sua cabecinha
Morreu a canção na macieira
A mata amansou, o arvoredo serenou,
Hoje digo adeus ao meu amor
Não te chamo ao pé de mim
Que a minha voz não te baralha
A mata amansou, o arvoredo serenou,
Hoje digo adeus ao meu amor
Pre teba moja laska
Pre nase noci a nase dni
Pre všetku lásku, mám pre vás
To Zuzka.
Inocencia...
o paraiso numa flor selvagem
Seguro o infinito na palma da mão
E a eternidade numa hora
Pesadelo
Que trabalha na lama
Que não conhece a paz
Que luta por um pedaço de pão
Que morre dia sim, dia não
Considere que se trata de uma mulher
Sem cabelo e sem nome
Sem rosto e sem passado
Sem força para recordar
Os olhos frios e o utero vazio