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Lembras-te de Praga? (4)


Nesse Verão querias ir para algum lado, então planeamos uma viajem para as montanhas, onde costumava-mos ir quando éramos mais novos. Tu lembravas-te dos anos e até dos meses em que lá tinhas estado, eu apenas tinha a recordação de lá ter estado enquanto miúdo.
Olha, uma flor de alecrim, disseste. Olhei pela janela, sentia o ar da noite e ao acaso, colocava a mão nas tuas costas. Estávamos tão bêbados, os dois. Não usavas nada sob a saia, apenas uma liga, pegaste na minha mão e colocaste no teu ventre.Perguntei o que costumavas fazer na montanha. Olhei para a água que escorria durante toda a noite, enquanto me dizias que os teus pais costumavam fazer churrasco. Comiam costeletas e convidavam estranhos para jantar. Tu achavas aquilo horrível. Ainda assim, foi entre pratos e churrascos que te apaixonaste pela primeira vez.
Duvido, disse eu.
Sim apaixonei-me aqui, disseste.
Talvez estejamos juntos há cinco mil anos, disse.
Há cinco mil anos atrás estava na Dinamarca, respondeste.
Continuei. É verdade. E metade de mim estava em África…
A fazer o quê?
A trabalhar a terra, acho eu. É o que toda a gente faz, em todos os locais…
De certeza que nunca estivemos juntos noutro momento…
Não sei….sei que quero estar junto agora…e tu tentavas não me olhar, e ias balbuciando coisas como cinco milhões, cinco milhões, cinco milhões….para terminares aquela conversa disseste:
Há cinco milhões de anos atrás não havia pessoas.
Adormeceste no peito e assim ficaste.
Lembro-me de me contares essa noite, disseste que não conseguias dormir ao ouvir os zumbidos da noite. Que o calor do meu rosto poderia ter mantido o mundo quente por uns dias. Que querias saber como era ter o meu calor, o calor do meu peito, o calor do meu rosto…disseste que mal conseguias tocar-me…
A propósito de nada tinha dito que te amava. Talvez isso te interessasse…

Lembras-te de Praga? (3)


Lembro-me dos rapazes que te olhavam na Praça da Cidade Velha, era desejo que lhes saía dos olhos, tu sorrias como um sol, levitavas pelas artérias que nos levavam á Ponte Carlos onde gostavas de ver as marionetas. Eu ia fingindo que não via como gostavas que te admirassem, se queres que te diga, até me fazia sentir importante, as vezes até desejado, não raras as vezes que me abraçavas por esses caminhos. Mas como louco é que eu me sentia bem. Sentia como se o Verão caísse em cima de mim.
Á noite, gostava-mos de ir de metro até Vysherad e passear no parque. Imaginava-mos fadas e duendes e contava-mos histórias. Ou então ficava-mos na Praça da Cidade Velha a beber vodka porque tu dizias que ninguém bebia becherovka, e a observar o ar meio tonto dos japoneses a olhar para o Pražský orloj.
Lembro: Encontramo-nos no Slavia Café no inicio da Cidade Nova. Tu nunca falaste, mas eu nunca me calei, e uma vez olhaste para mim e eu olhei para ti… ficaste tão vermelha que até o empregado de mesa percebeu . Eu era whitetrash da periferia de Budejovice e o meu senso de moda, ou elegância era zero. Dizia-te que tinhas tudo e nada a ver comigo e respondias irritada : Não, isso não é assim.
Costumavas querer levar-me a casa no teu velho Lada, e eu quase sempre recusava.Mas á terceira vez concordei. As nossas mãos tocaram-se no banco da frente, num gesto fugaz e envergonhado. Finalmente, chegamos juntos a algum lado. Eu disse-te para visitares a minha mãe,e tu balançaste a cabeça como quem concorda. Quero passar mais tempo contigo, gostava eu que dissesses.. Tu eras tudo o que eu poderia esperar. Olho para ti enquanto escovas o cabelo. Cada cabelo esticado brilha como um fio de ouro. Esticas lentamente o cabelo para não te magoares. Olho ternamente para ti e és tudo o que quero. O que posso eu fazer ?
Dirigimo-nos para Karlovy Vary e parece que Praga não tem quase ninguém. Tudo está quieto, escuro e as arvores brilham por causa das chuvas de ontem.
Apenas deixamos para sul as arvores. Milhares de lápides e mausoléus em ambos os lados da estrada . Aponto para uma casinha do caminho e digo-te: Imagina se tivesses de morar lá.
Sonho com os teus sonhos, digo-te eu. Diz antes pesadelos, respondes tu.
Paramos na biblioteca que fica na saída da cidade. Apesar da proximidade da faculdade, somos os únicos clientes, nós e um gato de três pernas. Sentas-te no salão principal e começas a olhar através das estantes. O gato parece que te quer atacar. Eu dou uma olhadela pelas historias de Reiner Maria Rilke. És a única pessoa que conheço que consegue gastar tanto tempo no meio dos livros quanto eu.. Um nerd olha de soslaio enquanto rodopias ao som de um poema. Sentas-te e deixas cair os braços. Passo-te os dedos pelas costas e rodo-te os ombros e ambos os braços..Skinny,digo-te eu.
Passo o meu rosto no teu e fazes um olhar de desagrado, que eu percebo que seja por não desfazer a barba vai para dois dias.
Pode funcionar, sussurras tu. Apenas temos de viver, exclamo eu.

Lembras-te de Praga? (2)


Costumavas piscar o olho esquerdo quando estavas cansada ou prestes a explodir. Procuravas uma saída, costumavas dizer, que os dias eram tão agitados que tinhas de os agarrar para pararem.
Quando acordei, encontrei-te sentada na beira da minha cadeira.
Costumavas usar o uniforme de professora, de onde tinhas retirado o casaco e desfeito os botões para que eu pudesse ver as sardas do teu peito e o sutiã preto que te tinha dado.
Sabíamos que estes não seriam os nossos últimos dias, sentados na Ponte Carlos, olhava-mos o Castelo, fumava-mos e bebericava-mos Becherovka.
Acabo de chegar disseste , enquanto olhavas o rio
Vou até ao Castelo…quero ser um duende alquimista.
Eu não vou ficar muito tempo.
Eles vão-me transformar num duende…
Eu estou bem.

Lá estavas tu, sentada na cadeira do quarto e eu não sabia se me devia aproximar.
Por um minuto pensei em estar longe daquela cama ; tu sentada e eu na outra ponta.
Disseste para não estalar os dedos e eu continuei sentado a observar as curvas do teu corpo.
Nessa noite, fiz-te o jantar. Knedliki e bramboraky para acompanhar o gulash.
Mas o nosso quarto era tão pequeno. Lembro-me de nunca quereres ficar. Querias sempre estar lá fora, onde gostavas de dormir sobre o tapete. Olhava-te ternamente, passavas as mãos pelo cabelo e sorrias para alua. Soletravas algo imperceptível e davas-me a mão sem dizer mais nada. A seguir o silêncio falava toda a noite por nós.

Lembras-te de Praga?


Em teoria, a nossa história não ia ser nada de grave. Nunca imaginamos casar ou algo do género, tu concordaste e eu disse que entendia. Então decidimos que nada seria doloroso
Lembro-me da quinta vez que nos encontramos e usaste um vestido todo preto e sandálias mexicanas.
Eu disse que para me chamares quando quisesses, mas tu nem sempre me chamavas. Tu sempre decidiste quando e como. Se eu deixasse isso para mim, eu queria-te todos os dias.
Sempre foste honesta, que é mais do que eu posso dizer de algumas pessoas. Pouco ligavas, mesmo se eu precisasse. Ficava ocupado com os meus trabalhos no Lab e tu por lá ficavas. Mas ao fim de semana era impossível ficar sem ti. Conseguia-mos conversar até o silêncio falar por nós. No final abraçava-te e dormia-mos embrulhados.Eu sempre disse que sim, e por muitas vezes me tentei convencer que seria apenas sexo e tu sabes disso. No entanto, sempre foste um templo sagrado onde depositava todos os meus restos.
Voltamos a Praga novamente. Lembras-te? Quando a luta parecia estender-se até ao infinito, e sempre acabava na cama, como se isso fosse mudar alguma coisa.
Em alguns meses estarias enamorada, talvez apenas pela minha pele escura, A primeira vez que te vi apanhaste o autocarro que eu sabia que não tinhas de apanhar. Quando me perguntavam quem era o meu amor, eu nem respondia só pelo medo de dizer o teu nome.
Sonhei uma viagem em que me sentava na beira de um lago. Olhava e via a agua que escorria laboriosamente, vi que esfregavas os braços e o fino pescoço. Estávamos de ressaca e não me querias molhar. A cura pela água, tu mesmo dizias.
Usavas um biquíni e uma t-shirt, uma névoa turva na superfície da água ligava as arvores. Entraste até a água chegar pela cintura e paraste. Eu olhei para ti e para mim., Era amor, não era? Naquela noite, vieste para a minha cama, e quando eu tentei beijar os teus mamilos atravessaste o teu braço no meu peito. Espera disseste.Deixaste a água a escorrer da tua boca e estava frio. Ouvi a tua respiração, a tua leveza, ouvi o som da água. E então eu senti a agua no meu rosto, virilha e costas. Sussurraste o meu nome e adormeceste num abraço, e lembro-me como na manhã seguinte não eras tu que dormias, e não havia nada que pudesse provar o contrário.

Cheiros a quanto obrigas

Ela tinha o problema de ser irresistivel ao acordar. Tinha um cheiro diferente que se ia perdendo ao longo do dia. Um cheiro morno, isso, um cheiro a leite morno com inexplicável aroma a baunilha. Muitas vezes, quase todos os dias, acordava a mulher cheirondo-a. Ela acordava com ele a farejar entre os seios, ou a enterrar a cabeça entre o travesseiro e a cabeça pra cheirar-lhe a nuca, onde descobrira o leve aroma das amendoeiras em flor.
Dizia ela :
- Que é isso ?
- Estou a cheirar-te á meia hora.
- Pára lá com isso...
O problema era que ela acordava das avessas. Quente, cheirosa, apetitosa e emburrada. Nem um beijo na boca lhe dava.
- Aínda nem lavei os dentes - resmungava ela. E se ele tentasse beijar-lhe o umbigo (nóz moscada ou quase de certeza canela) levava um chuto dali pra fora. E não eram só os cheiros. Ela acordava diferente. A cara maravilhosamente inchada, a boca meia á banda, como algumas meninas de Renoir. Ao longo do dia ia se esticando, mas quando acordava era uma campónia compacta com maravilhosas olheiras roxas. Ela não sabia explicar. Ela era magra de pernas delgadas, de manhã parecia uma gorda de pernas grossas, as pernas eram cobertas por uma leve penugem loura que de noite ela não tinha. Ou muito se enganava ou até o rabo ela perdia, de dia. A bunda. As nádegas rebolantes.
- Mmmmmm....ervas aromáticas ! Que sândalo....
- Tá quieto ! Pá-ra...
Todas as noites o ritual de ir para a cama. Depois do banho, camisa transparente e meias pretas, só para poder tirar as ligas em frente dele, por pensar que ele gostava. Ele sorria sem vontade, não querendo dizer que aquilo, não lhe causava a menor impressão, que gostava mesmo era quando ela acordava de manhã com a camisola toda torta, com as alças embrulhadas nas pernas, nas doces pernocas matinais. Não queria estragar o ritual, mas de noite ele é que prendia o burro.
Ela ficava deitada ao seu lado, com o cabelo a cobrir-lhe o rosto, um sorriso nos labios e cheiro a gel de banho.
- Ainda vais ler muito tempo - perguntava ela
- Anh.
Ela tentava começar qualquer brincadeira, inventava canções que cantarolava no ouvido dele, ou fingia que se interessava pelo livro.
- Tem sexo - perguntava ela.
Ele cedia as vezes só para a sossegar, ou continuava a ler até ela adormecer. Não queria nada com aquela alma que revirava as pestanas ao adormecer. Queria era a sua matinal camponesa irritada.
De manhã era ele que insistia.
- Sai daqui - dizia ela.
- Não ...só um pocachinho. Deixa-me passar o nariz pelo trigueiral das tuas coxas !
- Não deixa-me levantar, lavar os dentes, beber café e começar a vida. Antes de lavar os dentes e tomar café, uma pessoa não é pessoa. É uma coisa. Até pode evoluir para pessoa, mas isso é um processo muito lento e exclui qualquer digressão, ainda mais sexual.
Ela comparava o sono a um acidente ao qual se sobrevive, mas que se demora pelo menos meio-dia a recuperar. Mas o desejo dele de possui-la antes de lavar os dentes era uma tara indefensavel.
- Sai, sai daqui !
- Não, deixa-me cheirar só mais um bocadinho !
- Não, não e não...
Ela levantava-se rapidamente, colhia a alça estendida pelo meio das pernas com furia. Quando chegava á porta da casa de banho, já era uma mulher comprida. Se ao menos deixasse o rabinho na cama, pensava ele. E ficava a cheirar o travesseiro ainda quente. Amendoas, decididamente amendoas.
- Amor, eu acho que você tem outra...
- Outra quê?
- Outra mulher.
- Não digas asneiras.
- Acho que estás a pensar nela agora, agarrado a essa almofada ! Está a vê-la, está a ler-lhe os pensamentos. Diz lá que não.
Ele não dizia que não. Só pensava nela durante a manhã. A sua outra, a sua inantigivel ninfa das pernocas e da baunilha. Mas ela não tinha com que se preocupar. A outra não queria nada com ele.
Ele suspirava e fechava o livro. Enquanto faziam amor ele pensava na sua outra, mas o cheiro a gel de banho atrapalhava

Freud explica


Acostumo-me com a ideia de considerar cada acto sexual como um processo, em que, no minimo quatro pessoas estão sempre envolvidas.

Sigmund Freud



- Tenta relaxar...
- Desculpa, há uma parte de mim que, percebes? Fica ausente, como se não existisse. Há uma parte de mim que não se consegue entregar...avança e recua.
- Percebo.
- É como se houvesse uma terceira pessoa na cama !
- Sim, deve ser o teu super-ego. O meu também está aqui.
- Também ?
- Sim. Toda a gente tem um. O segredo é aprender a viver com ele.
- Se ele ao menos fechasse os olhos!
- Calma, eu percebo. Eu nestas ocasiões penso sempre que a minha mãe está presente.
- A tua mãe?
- Sim está aqui...nesta cama !
- Fizeste psicanálise ?
- Estou a fazer. Se pensar bem ele também está aqui.
-Quem?
- O psiquiatra. Credo, ao lado da minha mãe !!!
- O meu pai está também.
- O teu pai?
- O meu super-ego e o meu pai.
- Podem ser a mesma pessoa. Será que não estás a acumular...
- Não, não. São dois e não deixam de olhar para mim.
- Mas sexo é uma coisa tão natural.
- Diz-lhes isso...
- É mesmo ? Nem nós somos só nós. Eu sou o que penso que sou, sou como me vês....
- E também somos o que pensamos que somos para os outros.
- Vendo bem, cada um de nós é três.
- Quatro, se contar-mos com aquilo que somos na realidade.
- Mas afinal, somos o quê?
- Sei lá...
- Espera lá. Temos então: Do teu lado, estás tu, o teu pai e o teu super-ego...
- Do teu lado estás tu a tua mãe e o psicanalista...
- E o meu super-ego.
- E o teu super-ego.
- Mais alguem?
- O Juquinha...
- Quem ?
- O Juquinha. O meu grande amor. Fazia um sexo or.....
- Espera lá ! Esse gajo não.
-Mas...
- Ou sai o Juquinha ou saio eu e toda a minha turma...

Almofadinhas fofinhas

Pediram-me para escrever sobre almofadinhas fofinhas. Pois, não sei o que escrever sobre tal ! Não sei...almofadinhas fofinhas lembram a mamã, haverá algo de mais fofinho que o colinho da mamã ? Haverá almofadinha mais fofinha ? Não, não há....
Agora que faço este exercício, lembro-me, desde tenra idade o colo fofinho da mamã para tudo servia, para sonhar, para rir, para chorar. Foi realmente uma almofada bem fofinha !!!
Lembro-me das almofadas bem fofinhas do sofá lá de casa da mãe. Durante muito tempo foi o meu poiso preferido !! Depois de uma noitada com a rapaziada aquelas almofadas faziam milagres. Aconchegavam-me os fins de noite, principalmente aquelas em que acabava sozinho, sem uma alma que me aconchegasse...aí valia o carinho daquelas almofadinhas fofinhas !!!
Fossem como fossem, quadradas, redondas, rectangulares, triangulares, com bonecos, sem bonecos, flores, rios, paisagens ou lisas, as benditas fofinhas sempre fizeram parte do meu universo !
Hoje pelo-me por uma boa guerrinha de almofadas fofinhas na companhia dos meus amores, são doces horas em que se regressa à infância e os sorrisos valem a vida !!
Sim e no fim da noite ? No fim de uma guerra sem quartel ? No fim dos corpos suados ? O que sabe bem ? Hum...nada melhor que poisar a cabeça numa almofada bem fofinha, enroscar-me no meu amor e...dormir !

escritos de miséria

Um, dois três os braços pararam
No rosto um vergão de dor
Nas mãos a marca de um presente amargo
Caminha lentamente
P'la rua nua, despida de cor
Na sarjeta donde se despeja o lixo do mundo
O velhaco rato espreita por mais um resto da humanidade
Quando a casa chega
Duas crianças ramelosas e de olhar esquivo
Saltam-lhe para os braços
e uma lágrima quase lhe salta do rosto
Tem o sabor do sal
Da dor
Do óleo negro que lhe corrompe o corpo...
E lhe queima a pele
No meio do mundo podre
Resta-lhe um único consolo
O sorriso da mulher amada
Pernas cansadas, braços mastigados pelo ardor dos dias
Carnes flácidas lhe pendem do corpo
Desajeitado, torcido, curvado pelo tempo
Mas do rosto ainda sai um sorriso
Beijam-se
Entre línguas e sem dentes
Do jantar
Sobrevive o pão que se vai transformar em vida
E olham-se num misto de carinho amargurado
Abraçam-se na busca da esperança
De uma vida
Que não há-de ser ingloria !

Janelas

- Para onde estás a olhar?
- Para a janela...
- Não...para onde estás a olhar pela janela?
- Janelas, janelas, janelas....muitas janelas. Uma a uma as luzes apagam-se. É o único instante em que temos a certeza que lá está alguém...

Conto Curto - A musica

Toca a campainha e Carlos vai abrir a porta, sem antes ajeitar o cabelo, e dar um rodopio sobre si. Na porta está Gisela. No caso "mulher" é pouco. Se Deus mandasse uma amostra do seu trabalho para algum concurso seria a Gisela.

Preciso de me lembrar desta frase para depois escrever.

- Olá - diz Gisela
- Olá, entra a casa é tua...
Ela entra e olha ao seu redor e diz:
- Sou a primeira...
- Não. Desde os 16 anos que eu...
- Anh !...
-Esquece lá isso...
- Bonita a tua casa...
- Desde que chegaste ficou um jardim..
- O quê?
- Nada...sim é bonito.
- Mmmm...

Que conversa, que diálogos, que musica, que loucura, perfeito, perfeito- pensou ele.

- Dá-me o teu casaco, a tua mala...diz ele.
Ela dá. Ele fica paralisado ao seu lado. Diz ela:
- Não vou tirar mais nada..
- Ah, ok !
Ele guarda os pertences de Gisela. Ela examina a sala de jantar. Na mesa está um balde com uma garrafa de champagne e duas flautes. Diz ela então:
- Disseste que ia haver uma festa ...
- Onde estiveres é uma festa...
- Mas disseste que vinha muita gente.
- Pois...
- E só vejo dois copos.
- Yop....
- O resto das pessoas?
- Quais ?
- As que faltam, dah !!!
- Mmmm. Bem, se eles chegarem...
- "Se" ? Quer dizer que eles podem não vir ?
- Podem-se ter esquecido...
- Esquecem-se de uma festa...?
- Ou...eu posso ter esquecido de os convidar...
- Tou a ver...ok, a festa somos os dois, certo ?
- Eu prefiro grupos pequenos. Tu não?

Perfeito. Pena não gravar esta classe. Gisela solta o cabelo, o seu vestido branco voa e sobressaem o seu belo metro e meio de pernas. Que pernas, que corpo, que boca, que mamas, que noite! Ele serve-lhe champagne, ela diz:

- Quero-te avisar duma coisa...
- Vá diz...sou os teus ouvidos...
- Esta noite sou a Cinderela...
- Porquê?
- Até á meia-noite sou uma senhora...
- E à meia-noite...
Ela franze o sobrolho põe um ar sobranceiro afasta-o com a mão e diz:
-À meia-noite vou embora...
- Ah...não te preocupes, se és a Cinderela eu sou o teu escravo, o teu servo, o teu cocheiro...
- Já vi tudo...serve-me mais champagne, escravo !!

Ele serve e pensa: " Quem dera que ela diga que as bolinhas do champagne fazem cocegas no nariz...."

- As bolinhas de champagne estão a fazer-me cocegas no nariz...
- Isso eu também faço e não sou champagne...
- Quê ?
- Cocegas no nariz...
- Não entendo
- Esquece, esquece...
Também não se pode acertar em todas, pensa ele. Pergunta então:
- Não queres conhecer a minha biblioteca?
- Quero.
- Anda e trás o copo...
- Hei...espera lá. Isso é o teu quarto !
- A minha biblioteca fica no quarto. Estás a ver os dois livros ao lado da cama..
- Então trás para aqui...
- A cama ?
- Não, os livros !!!

Ele pega-a pela cintura, passa-lhe as mãos nas costas, rodopiam e caem no sofá. Pega na garrafa de champagne e serve mais uma flaute...

- Estas a querer embebedar-me !! Quem diz é ele.
-Se já abriste o champagne...que vamos abrir á meia noite ? pergunta ela.
- Talvez...um botão, ou dois, ou três....

Pensa ele : tenho de me lembrar disto tudo. Tenho de escrever, isto vai ficar para a história.

Nisto ouve-se :
DLIN-DLON........... DLIN-DLON,........,DLIN-DLON....DLIN-DLON !!!

Ela tenta levantar-se rapidamente do sofá
- Está na hora....
- De quê ?
- De ir embora....meia-noite!
- Nah...daqui tu não sais, Cinderela....(isto tudo no sofá)
-Mas tu disseste que eras o meu escravo...
- Pois disse !
- Pois eu ordeno-te que me leves a casa.
- Não.
(Ainda no sofá....ele por cima dela)
-Porque não ? - diz ela tentando afasta-lo, ou não.
- Porque deu a meia noite e eu transformei-me num rato !

Meia-hora depois ela está nua debaixo dos lençois e ele sentado numa mesa do quarto a escrever.

- Então meu amor...não vens...estou a ficar com frio...vem aquecer-me, anda !!!
- Espera só mais cinco minutos. Tou a escrever aqui umas coisas. Quando disseste que o champagne fazia cocegas no nariz o que foi que eu respondi ?
-

Conversa com um microbio inteligente sobre termodinamica

Tenho um amigo chamado MIC. O Mic não é um amigo qualquer, é um micróbio que vive aqui no laboratório dentro de um recipiente com um liquido verde. O Mic é um ser inteligente, no outro dia conversamos sobre Termodinâmica. Assim:
Eu : Mic !!!
Mic : Sim...diz lá ! Não vez que estou aqui sossegado...o que queres?
Eu : Já ouviste falar em Termodinâmica ?
Mic : Termo quê ?!!! Sei lá do que estás para aí a falar?
Eu : Mas já ouviste falar em temperatura de um corpo...
Mic : Não sei...isso tem alguma coisa a ver com cor...
Eu : Não...pode ter a ver, pode estar relacionado mas não tem nada a ver com isso agora !
Mic : Se me explicares o que é isso de temperatura...
Eu : Espera lá...

Ligo o bico de Bunsen e aqueço o recipiente onde vive o Mic. Num instante as moléculas verdes que rodeiam o Mic entram numa agitação louca, uma agitação perigosa....

Mic: Eh lá !!! Pára lá com isso. Estou a ser bombardeado por todo lado !
Eu : Ok...já parei.
Mic : Uffa...agora está mais suportável. O que fizeste?
Eu : Aqueci o liquido onde vives. Não ficou mais quente ?
Mic : Isso não sei. Sei que ficou mais perigoso. As moléculas aqui á volta andam sempre a chocar comigo. Normalmente suporto bem os choques mas de repente os choques tornaram-se mais violentos e perigosos e o movimento aumentou bastante. A isso chama-se aquecer?
Eu : Sim...pelo menos á escala microscópica. Arrefecer é o processo inverso, suponho que as moléculas ficaram mais lentas. A temperatura é uma forma de medir esta propriedade dos corpos. Quanto maior a temperatura mais quente está o corpo.
Mic : Ou seja, no meu mundo quanto maior for a temperatura maior o movimento. Então aquilo a que vocês, seres macroscópicos, chamam "temperatura", nós os pequenitos chamamos energia ! Quanto mais energia tiverem as moléculas, maior será o movimento.
Eu : Só que nós não vimos esse movimento...é curioso, quando colocamos dois corpos em contacto a temperaturas diferentes, nós dizemos que há transferência de calor. Passado algum tempo eles ficam á mesma temperatura e nós dizemos que atingiram o equilíbrio térmico. Não há mais nada a não ser passagem de um lado para o outro.
Mic: Equilíbrio térmico ? Nada disso aqui se passa. Existe sempre movimento por parte das moléculas e nem todas andam á mesma velocidade, nem todas têm a mesma energia. Se assim fosse quando o corpo está á mesma temperatura as moléculas teriam todas a mesma velocidade e nada disso acontece, percebes ?
Eu: Sim, só que nós os humanos não temos maneira de ver todas as moléculas ao mesmo tempo e muito menos calcular a energia de cada uma. Falamos por isso em propriedades medias do sistema, energia, pressão...são sempre referidos valores médios ...
Mic: Anh...a pressão também...sim está sempre a acontecer, as moléculas a chocarem contra as paredes do recipiente...
Eu : Também não temos possibilidades de medir a energia das moléculas uma a uma ...
Mic : Então, vocês também falam em energia!!
Eu : Claro. Até temos leis que definem a sua conservação. Falamos de energia interna e não a conseguimos medir directamente, calculamos apenas variações dessa energia que resultam em trocas de calor ou trabalho. Uma das leis da conservação da energia diz apenas que as variações de energia resultam das trocas de trabalho ou calor. Outra diz que a variação de energia de um sistema (num conceito mais geral onde se inclui energia interna, cinética e potencial) é igual á soma das trocas de trabalho e calor com o exterior, contando de forma positiva a energia que entra. Mas olha que demoramos muito tempo a chegar a esta conclusão !!
Mic : Nós nunca lá chegamos...
Eu : Graças a isto conseguimos construir máquinas térmicas, que funcionando por ciclos conseguem transformar calor em trabalho, mas isto não pode ser feito de qualquer maneira...
Carnot, que estudou o fenómeno, afirmou que não é possível produzir trabalho trocando calor com uma única fonte, o que é o mesmo que dizer que não se pode fazer passar calor de um corpo mais frio para um mais quente sem gastar trabalho no processo. É aquilo a que chamamos o 2º Principio da Termodinâmica...
Mic : E o 1º qual é?
Eu : É o da conservação da energia que falamos antes. Mas voltando aos ciclos de Carnot, ele imaginou uma máquina térmica perfeita que poderia andar para trás e para diante. O seu funcionamento percorria um ciclo de transformações com várias etapas, umas a temperatura constante, outras sem trocas de calor com o exterior ( isotérmicas e adiabáticas). Graças ao Ciclo de Carnot, podemos definir uma nova grandeza a entropia...
Mic: Entropia ! Nunca ouvi falar...
Eu : Quando colocamos dois corpos em contacto a diferentes temperaturas, esperamos um bocado e a temperatura fica igual.o que estou a dizer é que eles não podem voltar ao estado inicial espontaneamente. O processo é irreversível...
Mic : Curioso esse conceito de entropia..também sei o que são processos irreversíveis. Se deixares cair uma gota de tinta azul neste liquido verde, os milhões de moléculas que o compõem não demoram muito tempo a espalhar-se pelo recipiente devido aos choques entre as moléculas. O processo é irreversível. A probabilidade das moléculas de tinta azul se reunirem e voltarem a juntar é praticamente nula...nós os micróbios associamos a entropia á desordem molecular.
Eu : De certa forma tens razão...podes considerar a entropia como a desordem do sistema !
Mic: Nos sistemas isolados, processos irreversíveis são aqueles que levam á desordem maxima...Concordo com tudo o que me disseste, agora explica-me o que é a Termodinâmica ?
Eu: Termodinâmica é tudo aquilo de que estivemos a falar. Sempre que se fala em temperatura e fenómenos térmicos estamos a falar de termodinâmica. basta ver o conceito de entropia.
Mic : Para nós microbios não faz sentido falar em termodinâmica. O vosso conceito de temperatura não faz sentido na nossa escala. Nós só vimos partículas microscópicas em movimento...pra nós é mecânica. A entropia é só uma medida de ordem e de dispersão...
O que é curioso é verificar que á vossa escala tudo isto se modifica. Não fazia ideia que o choque de todas estas moleculas, com as moléculas das paredes deste recipiente desse origem a algo constante á vossa escala...aquilo a que chamaram pressão. Para nós é incompreensível. Aprecio a vossa termodinâmica, mas nós micróbios não precisamos delas, não construímos máquinas.
Eu : Ah pois...as máquinas !
Mic : Desliga lá isso que as moléculas estão aqui aos pontapés...estão a tornar-se violentas !!
Eu : Desculpa, esqueci-me.

Conto Curto - Aniversário.

Nuno e Joana foram para a cama á hora de sempre. Como sempre, pegou no seu livro de cabeceira, mas Joana queria conversa.
- Querido ...
- Huummm...
- Sabes que dia é hoje?
- Quinta-feira...
- Do mês?
- 25..
- E ? Não te diz nada?
- Não diz nada...como? Que tem?
- Pensa lá...é dia de um aniversário ...

Nuno sentiu um frio pela espinha. Será que se tinha esquecido do aniversário de casamento, como no mês anterior. Não...não podia ser, se se tinha esquecido o mês passado, não podia ser neste. Era o aniversário dela? Não podia ser...ou podia.

- Qual aniversário ? - Perguntou Nuno a franzir o olho.
- Duma coisinha que se passou á muitos anos...
- Muitos anos...quantos? Muitos anos é muito tempo !
- Antes do nosso casamento...
. Ah pois !!! Queres que me lembre duma coisinha que aconteceu antes do nosso casamento ? Sei la eu...aconteceram tantas coisas. Dorme !
- No sofá da casa dos meus pais, lembras-te agora?
- Ah...pois !
- Lembras, ou não ?

Não, não era possível. A Joana lembrava-se de coisas do arco da velha. Nuno forçou um sorriso amarelo, emitiu um gemido e voltou á leitura. Joana insistiu:

- Amor ?
- Que é?
- Vamos comemorar...
- Tá bem vamos comemorar - disse Nuno com ar de enfado.

Pousou o livro, virou-se para a mulher e beijou-a. Depois pegou no livro e voltou á leitura. Joana estava furiosa.

- Só isso !!! - vociferou Joana.
- Sim..."só isso"...porquê?
- Só um beijo Nuno...isso é uma secura, ou uma tortura....
- Sabes, se bem me lembro naquele dia foi só um beijo...
- Sim, mas....
- Eu insisti, e tu não quiseste...
- Mas Nuno, amor...
- Eu insisti, não insisti? Pedi mais que um beijo, não foi? E o que disseste ?
- Eu disse..."não"
- Exactamente..."não" !!
- Mas depois eu deixei Nuno....nunca mais te disse "não" !!
- Deixaste...sim ...três meses depois, não...foram ao certo três meses e meio depois...
- Ah, Nuno !
- Não...já disse.
- Então vamos comemorar o que aconteceu três meses e meio depois...
- Eu nessas coisas sou ortodoxo, aniversário é no dia. Por isso dorme.
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