escritos de miséria

Um, dois três os braços pararam
No rosto um vergão de dor
Nas mãos a marca de um presente amargo
Caminha lentamente
P'la rua nua, despida de cor
Na sarjeta donde se despeja o lixo do mundo
O velhaco rato espreita por mais um resto da humanidade
Quando a casa chega
Duas crianças ramelosas e de olhar esquivo
Saltam-lhe para os braços
e uma lágrima quase lhe salta do rosto
Tem o sabor do sal
Da dor
Do óleo negro que lhe corrompe o corpo...
E lhe queima a pele
No meio do mundo podre
Resta-lhe um único consolo
O sorriso da mulher amada
Pernas cansadas, braços mastigados pelo ardor dos dias
Carnes flácidas lhe pendem do corpo
Desajeitado, torcido, curvado pelo tempo
Mas do rosto ainda sai um sorriso
Beijam-se
Entre línguas e sem dentes
Do jantar
Sobrevive o pão que se vai transformar em vida
E olham-se num misto de carinho amargurado
Abraçam-se na busca da esperança
De uma vida
Que não há-de ser ingloria !

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