Perdemos a viagem

Peço ao patrão para sair mais cedo, meto-me no IC 19 cheio de trânsito, vou ao médico que fica no centro de Lisboa, perco tempo, dinheiro e a boa disposição. Chego para além de cansado, atrasado e descubro que já não tenho consulta, o medico saiu, era á uma hora atrás, tentaram-me ligar mas o telemóvel estava desligado...enfim perdi tempo e uma viagem.
Acontece-me algumas vezes e já deve ter acontecido a meio-mundo.Todos já estiveram no lugar errado á hora errada por pura distracção. O problema é quando acontece muitas vezes, quando perdemos viagens todos os dias. Todinhos. É o caso daqueles que ainda não entenderam o que andam realmente a fazer por aqui.
Perdemos viagens quando não nos comprometemos: nem com uma profissão, com um relacionamento ou com as nossas próprias opiniões. Perdem viagens aqueles que flutuam, aqueles não pousam em qualquer sentimento, que não lutam por nenhuma ideia nunca assumindo a responsabilidade por aquilo que fazem, pois na verdade não fazem nada. Respirar já é uma tarefa dura demais. Os dias passam e eles passam pelos dias sem que nada fique registado. Sem nada que valha a pena lembrar.
Perdemos a viagem quando em vez de vivermos a nossa vida, ficamos a patrulhar a vida alheia. Quando decidimos o que está certo ou errado para os outros. Quando não toleramos formas de pensar e de viver diferentes e gastamos a nossa boca com bisbilhotices e nossos olhos com voyeurismos palermas. Perdemos a viagem quando dedicamos mais tempo á existência do vizinho do que á nossa.
Perdemos a viagem quando somos preguiçosos e não somos capazes de um telefonema para um telefonema para quem gostamos, quando demoramos meses a terminar a leitura de um livro ou levamos meses para decidir visitar um amigo. Pessoas que pensam que tudo é cansativo e pesado, que acreditam que tudo pode esperar e que todos perdoarão a ausência ou o relaxo.
Perdem a viagem aqueles que não sabem de onde vieram nem tentam descobrir. Não sabem para onde vão nem tentam saber o caminho. Aqueles para quem a televisão, pode na boa, substituir as emoções.
Perdem a viagem todos aqueles que se entregam de mão beijada as garras do tédio.

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