Ela tinha o problema de ser irresistivel ao acordar. Tinha um cheiro diferente que se ia perdendo ao longo do dia. Um cheiro morno, isso, um cheiro a leite morno com inexplicável aroma a baunilha. Muitas vezes, quase todos os dias, acordava a mulher cheirondo-a. Ela acordava com ele a farejar entre os seios, ou a enterrar a cabeça entre o travesseiro e a cabeça pra cheirar-lhe a nuca, onde descobrira o leve aroma das amendoeiras em flor.
Dizia ela :
- Que é isso ?
- Estou a cheirar-te á meia hora.
- Pára lá com isso...
O problema era que ela acordava das avessas. Quente, cheirosa, apetitosa e emburrada. Nem um beijo na boca lhe dava.
- Aínda nem lavei os dentes - resmungava ela. E se ele tentasse beijar-lhe o umbigo (nóz moscada ou quase de certeza canela) levava um chuto dali pra fora. E não eram só os cheiros. Ela acordava diferente. A cara maravilhosamente inchada, a boca meia á banda, como algumas meninas de Renoir. Ao longo do dia ia se esticando, mas quando acordava era uma campónia compacta com maravilhosas olheiras roxas. Ela não sabia explicar. Ela era magra de pernas delgadas, de manhã parecia uma gorda de pernas grossas, as pernas eram cobertas por uma leve penugem loura que de noite ela não tinha. Ou muito se enganava ou até o rabo ela perdia, de dia. A bunda. As nádegas rebolantes.
- Mmmmmm....ervas aromáticas ! Que sândalo....
- Tá quieto ! Pá-ra...
Todas as noites o ritual de ir para a cama. Depois do banho, camisa transparente e meias pretas, só para poder tirar as ligas em frente dele, por pensar que ele gostava. Ele sorria sem vontade, não querendo dizer que aquilo, não lhe causava a menor impressão, que gostava mesmo era quando ela acordava de manhã com a camisola toda torta, com as alças embrulhadas nas pernas, nas doces pernocas matinais. Não queria estragar o ritual, mas de noite ele é que prendia o burro.
Ela ficava deitada ao seu lado, com o cabelo a cobrir-lhe o rosto, um sorriso nos labios e cheiro a gel de banho.
- Ainda vais ler muito tempo - perguntava ela
- Anh.
Ela tentava começar qualquer brincadeira, inventava canções que cantarolava no ouvido dele, ou fingia que se interessava pelo livro.
- Tem sexo - perguntava ela.
Ele cedia as vezes só para a sossegar, ou continuava a ler até ela adormecer. Não queria nada com aquela alma que revirava as pestanas ao adormecer. Queria era a sua matinal camponesa irritada.
De manhã era ele que insistia.
- Sai daqui - dizia ela.
- Não ...só um pocachinho. Deixa-me passar o nariz pelo trigueiral das tuas coxas !
- Não deixa-me levantar, lavar os dentes, beber café e começar a vida. Antes de lavar os dentes e tomar café, uma pessoa não é pessoa. É uma coisa. Até pode evoluir para pessoa, mas isso é um processo muito lento e exclui qualquer digressão, ainda mais sexual.
Ela comparava o sono a um acidente ao qual se sobrevive, mas que se demora pelo menos meio-dia a recuperar. Mas o desejo dele de possui-la antes de lavar os dentes era uma tara indefensavel.
- Sai, sai daqui !
- Não, deixa-me cheirar só mais um bocadinho !
- Não, não e não...
Ela levantava-se rapidamente, colhia a alça estendida pelo meio das pernas com furia. Quando chegava á porta da casa de banho, já era uma mulher comprida. Se ao menos deixasse o rabinho na cama, pensava ele. E ficava a cheirar o travesseiro ainda quente. Amendoas, decididamente amendoas.
- Amor, eu acho que você tem outra...
- Outra quê?
- Outra mulher.
- Não digas asneiras.
- Acho que estás a pensar nela agora, agarrado a essa almofada ! Está a vê-la, está a ler-lhe os pensamentos. Diz lá que não.
Ele não dizia que não. Só pensava nela durante a manhã. A sua outra, a sua inantigivel ninfa das pernocas e da baunilha. Mas ela não tinha com que se preocupar. A outra não queria nada com ele.
Ele suspirava e fechava o livro. Enquanto faziam amor ele pensava na sua outra, mas o cheiro a gel de banho atrapalhava
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