Lembras-te de Praga? (2)


Costumavas piscar o olho esquerdo quando estavas cansada ou prestes a explodir. Procuravas uma saída, costumavas dizer, que os dias eram tão agitados que tinhas de os agarrar para pararem.
Quando acordei, encontrei-te sentada na beira da minha cadeira.
Costumavas usar o uniforme de professora, de onde tinhas retirado o casaco e desfeito os botões para que eu pudesse ver as sardas do teu peito e o sutiã preto que te tinha dado.
Sabíamos que estes não seriam os nossos últimos dias, sentados na Ponte Carlos, olhava-mos o Castelo, fumava-mos e bebericava-mos Becherovka.
Acabo de chegar disseste , enquanto olhavas o rio
Vou até ao Castelo…quero ser um duende alquimista.
Eu não vou ficar muito tempo.
Eles vão-me transformar num duende…
Eu estou bem.

Lá estavas tu, sentada na cadeira do quarto e eu não sabia se me devia aproximar.
Por um minuto pensei em estar longe daquela cama ; tu sentada e eu na outra ponta.
Disseste para não estalar os dedos e eu continuei sentado a observar as curvas do teu corpo.
Nessa noite, fiz-te o jantar. Knedliki e bramboraky para acompanhar o gulash.
Mas o nosso quarto era tão pequeno. Lembro-me de nunca quereres ficar. Querias sempre estar lá fora, onde gostavas de dormir sobre o tapete. Olhava-te ternamente, passavas as mãos pelo cabelo e sorrias para alua. Soletravas algo imperceptível e davas-me a mão sem dizer mais nada. A seguir o silêncio falava toda a noite por nós.

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