Lembras-te de Praga? (3)


Lembro-me dos rapazes que te olhavam na Praça da Cidade Velha, era desejo que lhes saía dos olhos, tu sorrias como um sol, levitavas pelas artérias que nos levavam á Ponte Carlos onde gostavas de ver as marionetas. Eu ia fingindo que não via como gostavas que te admirassem, se queres que te diga, até me fazia sentir importante, as vezes até desejado, não raras as vezes que me abraçavas por esses caminhos. Mas como louco é que eu me sentia bem. Sentia como se o Verão caísse em cima de mim.
Á noite, gostava-mos de ir de metro até Vysherad e passear no parque. Imaginava-mos fadas e duendes e contava-mos histórias. Ou então ficava-mos na Praça da Cidade Velha a beber vodka porque tu dizias que ninguém bebia becherovka, e a observar o ar meio tonto dos japoneses a olhar para o Pražský orloj.
Lembro: Encontramo-nos no Slavia Café no inicio da Cidade Nova. Tu nunca falaste, mas eu nunca me calei, e uma vez olhaste para mim e eu olhei para ti… ficaste tão vermelha que até o empregado de mesa percebeu . Eu era whitetrash da periferia de Budejovice e o meu senso de moda, ou elegância era zero. Dizia-te que tinhas tudo e nada a ver comigo e respondias irritada : Não, isso não é assim.
Costumavas querer levar-me a casa no teu velho Lada, e eu quase sempre recusava.Mas á terceira vez concordei. As nossas mãos tocaram-se no banco da frente, num gesto fugaz e envergonhado. Finalmente, chegamos juntos a algum lado. Eu disse-te para visitares a minha mãe,e tu balançaste a cabeça como quem concorda. Quero passar mais tempo contigo, gostava eu que dissesses.. Tu eras tudo o que eu poderia esperar. Olho para ti enquanto escovas o cabelo. Cada cabelo esticado brilha como um fio de ouro. Esticas lentamente o cabelo para não te magoares. Olho ternamente para ti e és tudo o que quero. O que posso eu fazer ?
Dirigimo-nos para Karlovy Vary e parece que Praga não tem quase ninguém. Tudo está quieto, escuro e as arvores brilham por causa das chuvas de ontem.
Apenas deixamos para sul as arvores. Milhares de lápides e mausoléus em ambos os lados da estrada . Aponto para uma casinha do caminho e digo-te: Imagina se tivesses de morar lá.
Sonho com os teus sonhos, digo-te eu. Diz antes pesadelos, respondes tu.
Paramos na biblioteca que fica na saída da cidade. Apesar da proximidade da faculdade, somos os únicos clientes, nós e um gato de três pernas. Sentas-te no salão principal e começas a olhar através das estantes. O gato parece que te quer atacar. Eu dou uma olhadela pelas historias de Reiner Maria Rilke. És a única pessoa que conheço que consegue gastar tanto tempo no meio dos livros quanto eu.. Um nerd olha de soslaio enquanto rodopias ao som de um poema. Sentas-te e deixas cair os braços. Passo-te os dedos pelas costas e rodo-te os ombros e ambos os braços..Skinny,digo-te eu.
Passo o meu rosto no teu e fazes um olhar de desagrado, que eu percebo que seja por não desfazer a barba vai para dois dias.
Pode funcionar, sussurras tu. Apenas temos de viver, exclamo eu.

Sem comentários:

Enviar um comentário