Quando penso nos livros da minha vida sinto vergonha. Estão todos arrumados no fundo das estantes. Por respeito e tristeza. Quando comparada a puta da vida que levamos, com as aventuras literárias que lemos tudo se torna irremediavelmente insignificante.
Razão tinha Flaubert, ao exclamar no leito da morte : " Morro como um cão. E aquela putain viverá para sempre". A putinha era Emma de Bovary criação maior de Gustave. Isto diz tudo da nossa miserável existencia. A literatura vive e resiste. A vida, vive e desiste. Existe uma insuportável superioridade da literatura sobre a vida.
Até podemos ser os seres mais apaixonados, mais dedicados, mais capazes, mais eloquentes, mais tudo...mas nunca conseguiremos amar como Dante amou Beatrice ou com Bendrix amou Sarah num céu carregado de demência e morte. Veneza fede no Verão, nunca nos livros de Mann ou Calvino.
E por amor de Deus...quantas quecas damos numa noite ? Uma ? Duas ?...alguns atletas arriscarão três !!! Henry Miller dava cinco por noite e de seguida ia para os bordeis de Paris embebedar-se e dar mais algumas. Pobre juventude que foi vivida na angustia da impotência. Cinco de seguida ? Ao pé dele não passava de um verme miserável.
A verdade é fria e crua. Os livros da nossa vida só servem para a estragar. Porque nós vamos. Mas a putéfia da Bovary é eterna.
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