Sempre gostei de comboios. Quando andava na Faculdade, viajava muito de comboio e aquilo era um ritual sagrado. 19:00 em Santa Apolónia e lá ia eu. Quase sempre os mesmos, lia-mos umas coisas, outros dormiam, ainda outros aproveitavam para estudar ou fazer alguns trabalhos. Umas sandes de panado no Entroncamento e a viagem continuava.
Pareço um velho. Mas isto é que foi bom tempo.
Pois bem. Este mundo tão bucolico vai acabar. Com o TGV tudo vai ficar a menos de duas horas de distância. Tanta ansia de chegar, um orgasmo de velocidade. A ejaculação precoce do executivo moderno, que desde que o comboio seja rapido e asseptico está disposto a mandar o avião ás malvas. Enfatiados bem produzidos, a beber Coca-colas e com o cabelo empastado em resina, com uma obsessão patológica por "montes alentejanos", "mercados", "sub-primes" e as tetas duma galdéria qualquer. O TGV vai roubar-nos o prazer do tempo. Vai escavacar a ultima restea de civilização.
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