Os peixes vivem na agua sem saber que viverão submergidos toda a vida e que fora de agua o seu destino é a destruição. Assim estamos nós perante o tempo : fora do nosso tempo não existe nada para além do vazio.
Assim, as coisas e os objectos que nos rodeiam são agregações temporais. Tendemos a ver as coisas, os objectos e até a nós mesmo como algo sólido, isto não passa de um habito criado por este fluir de tempo com o nome de "vida".
De facto, sabemos que tudo está em permanente mudança. Seremos pó antes dos cem anos, as montanhas ainda poe cá ficarão, mas sempre com a possibilidade de se desintegrarem. O sol poderá apagar-se e o mar secar...não esquecemos, não pensamos, mas sabemos que poderá acontecer.
O que nos rodeia é aglomerado temporal, frageis poeiras unidas por campos magnéticos; moleculas e particulas em constante mudança, somos objectos unidos por uma energia de diferentes graus de coesão.
Os atomos condensam-se em nuvens flutuantes como as do ceu, mudam e têm aspectos variaveis, As vezes mais ou menos cinzentas, brancas e até negras. As vezes são algodão, outras violetas. Nas nuvens conseguimos ver o que queremos, portos, montes, lagos vulcões e até seres humanos.
Olhamos para as estrelas e podemos ver um carro puxado por bois, dois irmãos gemeos ou uma rapariga com um cantaro nos quadris. Os signos do zodíaco, as constelações, as figuras astrologicas permanecem por muito tempo porque as variações das estrelas são muito lentas aos nossos olhos e daí podemos reconhecer alguns sinais.
O mais interessante, é que o conjunto destas mudanças nada significam, não dão lugar a nenhuma história coerente. As invenções, as fabulas e até as lendas carecem de sentido, não vão a lado nenhum, não têm destino.
Durante seculos, o homem tem tentado compreender o destino do mundo, a sua história, dar-lhe uma direcção. Continuamos a pensar que é possivel conhecer a direcção e o sentido do tempo.
Até que ficamos sem força para inventar o futuro, criar destinos ou progressos. Já deviamos perceber que não existe sentido no fluir do tempo, somos como as uvens que passam, um cosmos passageiro.
Por medo ou curiosidade queremos perceber a razão de tanta mudança inutil, para isso inventamos lendas, herois, guerreiros, santos, sabios e até simples humanos. As vezes os deuses têm uma forma animal, outras fluem como os rios.Os herois têm corpos musculados ou são crianças imaculadas. Os mitos tiveram milhões de protagonistas. Sabemos que são ficções para adormecer-mos, para sonhar-mos ou ainda para aliviar o tédio que é a forma suprema do medo de morrer na ignorancia.
Queiramos ou não, conhecemos o mundo por sinais que recebemos ao nascer. Sinais pintados, pintados, esculpidos, rabiscados ou compostos. Esses sinais carecem da relação com algo permanente, porque na realidade nada é permanente. São apenas figurações sobre nuvens passageiras, que tal como este texto não obedecem a qualquer logica ou sentido.
Somos então um punhado de palavras, uma amalgama de imagens levemente unidas, perseguidos por um sentimento de passagem ou permanente mudança.
Ontem era pastor, hoje as ovelhas alimentam-se da minha pele : sou a terra do vale.
Aprender a conhecer as imagens e as palavras é o "unico argumento da nossa obra".
Sem comentários:
Enviar um comentário