O meu avô João faleceu. Partiu para junto do Pai e está sentado ao seu lado. Do nada veio, para o nada foi. É assim desde o principio do tempo e será sempre a única certeza que temos: No fim voltaremos sempre para o útero de nossas mães.
O avô João veio ao mundo pobre e deixa o mundo mais pobre. Em vida foi um mestre e um príncipe. Era um homem bom, um lutador, empreendedor, amigo do seu amigo, de um amor incondicional pela família, integro, inteligente, inquebrável, tinha uma fé inabalável no seu saber, um homem de princípios, amava e respeitava o seu trabalho e dos outros. Um homem com um coração enorme que deixou marca neste mundo e naqueles que com ele conviveram.
O seu amor pela família era incondicional. Gostava de ter sempre uma palavra, quase sempre a ultima, em tudo o que dizia respeito todos nós. Todos sentíamos a sua presença. O amor do avô era rijo, não era dado a mesuras, era presente e afirmativo dava-nos energia e caminhos, deu-nos tudo o que alguem pode dar aos seus. Gostava de almoçar aos Domingos com a familia e á hora certa era sempre o primeiro a sentar e esperava que o servissem.
Na vida era um principe. Levantava-se muito cedo para todos os dias fazer a barba, andava sempre de cabelo bem cortado. Gostava de encomendar roupa num alfaiate da Amadora. Era vaidoso e gostava de se arranjar. Gostava de passear conhecia todos os cantos de Portugal, tinha na caça o seu maior vicio, gostava de sair as quintas-feiras de Lisboa e regressar aos Domingos das caçadas com os amigos em Espanha. Se não era a caça, era o Sporting. Todos os Domingos lá estava-mos nós no velhinho Estadio de Alvalade para mais um jogo do nosso SCP, tambem gostava de pegar nos amigos e ir almoçar á Mealhada e no fim lá trazia um leitão para o jantar.
Tinha vaidade nos seus "Mercedes". Lembro-me do orgulho com que me disse quando em 2000 comprou o seu SL. Disse o avô: " o teu avô comprou o primeiro carro destes da freguesia"e de como gostava de passear nele. Nas viagens mais longas, os olhos sorriam de orgulho á medida que ultrapassava os outros automobilistas gostava de dizer com um enorme sorriso : " quem tem força é que arroja peso" e sempre chegamos seguros aos nossos destinos.
Viajou, foi á Suiça ver o SCP, a Israel, a Italia,a Inglaterra e á Escocia, aos EUA e ao Canada e não sei se mais a algum sitio. Sei que se apaixonou pela Escocia e pelo Canada e que Nova Iorque e Londres eram cidades "sujas" e cheias de "gente esquisita".
O avô João nunca saía de casa sem a carteira nem sem o relogio. Mesmo nos ultimos meses de vida, já doente, os unicos pedidos que fazia era "onde está a minha carteira e o meu relogio", era doente com as horas e nunca chegava atrasado. Ficava com mau feitio se alguem se atrasasse e demonstrava-o. Lembro-me de ter marcado uma reunião com alguem que se atrasou. Foi embora, encontrou essa pessoa enquanto abandonava o local, ela desfez-se em desculpas mas ele não voltou atras tinha mais que fazer e o outro para a proxima que viesse mais cedo.
Era um mestre na sua arte. E não havia quem o contrariasse, arrumava qualquer questão com uma frase que muitas vezes ouvi : "digo-te como se faz e explico-te porquê", poucas vezes se enganou. Na sua empresa era rigoroso com os pagamentos, valorizava quem com ele trabalhava dizia muitas vezes "quem trabalha tem de receber" e muito sofreu a sua secretária, a Dona Celeste, com a pressa dos pagamentos. Enfrentava todos os problemas de peito aberto e era sempre o primeiro a dar o peito as balas; dizia muitas vezes " os problemas são para se enfrentar e resolver" e sempre assim foi. Na hora da sua partida, muitos dos presentes alem de lamentarem a sua morte, recordavam o seu saber e os seus ensinamentos. Junto com o meu tio Antonio, construiu uma vida de que nos podemos orgulhar e apesar das diferenças entre ambos sempre souberam colocar o bem comum em primeiro lugar, e o sangue sempre falou mais alto. Hoje acredito que estão a resmungar um com o outro sobre qualquer coisa que um devia de ter feito e não fez.
Na hora da partida foi um principe. Sempre sereno com a doença, aceitando-a. Gostava de vir á rua, mesmo na cadeira de rodas, sempre bem vestido e sem esquecer a carteira e o relogio. A todos sorria e dentro da sua debilidade tentava manter alguma comunicação.
Partiu sereno e em paz. Eu tenho muito orgulho em ter um avô como o Sr. João. Um mestre e um principe da vida. Até um dia avô João.
Sem comentários:
Enviar um comentário