Pedro e Maria

Historieta baseada numa bela musica de Renato Russo

Maria não era a mais bonita da sala de aula. Mas a única que iluminava o quarto escuro da nossa imaginação. Acabei por me apaixonar como mais um tolinho. Saímos algumas vezes, jantamos e bebemos uns copos nos bares de Lisboa e o máximo que consegui foram uns beijos insonsos na face, naquele rosto fofinho como casaca de pêssego. E assim andamos vários meses, eu tentava e ela fugia.
Um belo dia (na verdade, um dia horrível), fiquei a saber que ela andava a sair com um rapazinho, ainda puteco que nem tinha saído do liceu. Meus Deus ! Nem queria acreditar. Só acreditei quando conheci o Pedro. Tentei conversar com ele. Nada feito. O gajo era mais burro que uma bota da tropa. Não lia jornais, só assistia a filmes do Spielberg e até novelas via. Pensei com os meus botões: “ Maria como é possivel…”
No entanto era. Foi difícil aceitar a derrota. Só me convenci, quando o Pedro terminou o liceu e entrou na faculdade e o namoro já era tão firme como uma liga metálica. Não pareciam feitos um para o outro. Mas juntos eram como carbono e hidrogénio, feijão com arroz ou Jardel e João Pinto. Era um caso que nem Freud teria explicação.
Como a vida é manhosa. Imaginava como seria o namoro deles. Maria gostava de ver filmes do Jean-Luc Godart, lia Rimbaud e Pessoa. Ouvia Caetano Veloso e Jobim. O Pedro ? Lia o percurso do autocarro e divertia-se com a pancadaria do Seagal no cinema e queria ser engenheiro.
Maria estudava medicina e falava alemão. O Pedro ? Nem conseguia decorar o verbo “to be” do curso de Ingles para principiantes.
O meu concorrente nem berço tinha. Era filho de feirantes da periferia. Diferente de Maria e de mim que éramos de boas famílias. Tinhamos linhagem. O pai da Maria era um famoso cirurgião professor na faculdade de Medicina de Lisboa e o meu pai tinha feito fortuna nos anos loucos da construção civil. Tinha trabalhado até com Siza Vieira e conhecia todos os caminhos para vencer um concurso publico.
O meu pai queria que eu fosse engenheiro para ajudá-lo nos negócios, ou que fosse politico também para ajuda-lo nos negócios. Não quis, deixei para os meus irmãos. Sempre gostei de biologia. Quando era pequeno, lá em Sintra, matava rãs e ratos para abri-los e estuda-los. Sempre gostei de sangue e nunca tive medo de ver o liquido vermelho a ser derramado de algum corpo, excepto do meu, é claro….
Mas volto para a Maria e o Pedro. Fui obrigado partir. Aquele caso era inevitável como o ar seco do Alentejo. Foram viver juntos e passado uns tempos tiveram gémeos.
O tempo passou. Foemei-me e passado uns tempos fui para Lisboa, onde está o dinheiro. O meu pai rico como Midas ajudou-me a abrir um consultório na Baixa de Lisboa. Cirurgia plástica é do melhor para fazer dinheiro, não há ramelosa que não queira esticar as peles. Casei-me com a filha de um deputado, amigo do meu pai e lá fizemos os nossos gémeos.
Maria e Pedro vêm a Lisboa uma vez por ano. Ele tem uma tia que mora em Almada, meu Deus que vida tão pobre. Mas o que se pode esperar do Pedro ? Agora, formado em engenharia trabalha na construtora do meu pai, e até se cultivou um pouco. Pelo menos deixou de ver telenovelas, mas continua a ver filmes manhosos de serie B com musculados no ecrã. Como lhe arranjei trabalho, vem comer á minha mão. A vingança serve-se fria.
Maria continua a luzir, como uma lâmpada de milhões de watts. Enquanto o panças do Pedro bóia na piscina com as crianças. Maria e eu lembramo-nos do tempo da faculdade. Ela continua a falar sobre qualquer assunto. Só tem um senão : Trabalha em hospitais públicos e gosta. Tudo histórias de gente pobre.
Quem ler isto pensa que sou um snob, petulante e convencido, talvez até reaccionário. Talvez até seja odiado, afinal o Pedro é que é o bonzinho da história. Asneira. Os Portugueses gostam de pieguices, de coitadinhos. Por isso vivo noutro mundo. Como diria Nelson Rodrigues “ o povo sofre de complexo vira-lata”. Assino por baixo. A única coisa que não previu foi o amor entre desiguais.
“ E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração”

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