As vezes gostas que te conte histórias. Logo eu, que não tenho nenhuma história fantástica e brilhante para contar. A unica história que te consigo contar é a minha, mas essa desfaz-se em pó e vale pouco mais que
nada.
Diario das palavras tristes
"Chega-se a ser grande por aquilo que se lê e não por aquilo que se escreve" JORGE LUIS BORGES
Outono
As vezes ando pela cidade sem ti. Não tenho pressa, vagueio sem querer chegar a nenhum destino, oiço varias línguas que transformam o meu cérebro num carrossel, as flores inuteis caem nos vasos e o rio parece resignado ao olhar dos transeuntes. Ando sem ti, sem olhar para o frenesim das gentes, sem olhar para o homem esguio de fato negro de belo corte que percorre a calçada enquanto fala ao telemovel, sem olhar para as longas pernas da senhora que acabou de comprar uma qualquer lingerie, apenas imagino que alguem irá ser feliz, nem reparo na criança que chora porque queria um gelado e a mãe comprou outra coisa qualquer.
Apenas reparo nos lugares onde moras dentro de mim. Na sombra dos platanos brincam crianças com bocadinhos de luz e pedaços de musgo macio e podias ser tu. A brisa que corre acorda os segredos da tua alma e sinto que afinal há seculos que não sais dos meus braços.
Nos olhos de uma menina vejo a sombra dos teus olhos, talvez até sejas tu que te transformaste na menina do meu universo, numa luz de uma noite tão comprida. Não sentes o mar, o nevoeiro e as folhas que morrem com tristeza?
Vem, anda que é Outono.
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Apenas reparo nos lugares onde moras dentro de mim. Na sombra dos platanos brincam crianças com bocadinhos de luz e pedaços de musgo macio e podias ser tu. A brisa que corre acorda os segredos da tua alma e sinto que afinal há seculos que não sais dos meus braços.
Nos olhos de uma menina vejo a sombra dos teus olhos, talvez até sejas tu que te transformaste na menina do meu universo, numa luz de uma noite tão comprida. Não sentes o mar, o nevoeiro e as folhas que morrem com tristeza?
Vem, anda que é Outono.
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Conversas sobre mulheres...
As vezes conversamos sobre mulheres. Se são isto, ou aquilo pouco interessa. Invariavelmente concluimos que nada sabemos sobre o assunto. Eu pelo menos assim me confesso. Até porque, mais ou menos como dizia Chesterton, falar de "mulheres" ou "gostar de mulheres" é uma coisa meio canalha, agora gostar de uma mulher é obra.
Pouco posso adiantar ao assunto, mesmo porque só tenho um exemplar do género em casa, o que torna a amostra muito pequena para o caso. No entanto, e vale o que vale, tento mantê-la com muito zelo e carinho mas no fundo acho que é ela que me mantêm a mim.
Mesmo porque não existem segredos, carinho muito que é coisa de homem, flores as vezes que é para não murchar (as mulheres que não recebem flores têm tendência para embrutecerem) e paciencia para respeitar a natureza. Sim as mulheres choram por duas razões - por tudo e por nada - , sofrem de TPM, emburram, têm sempre razão, escondem segredinhos, mas o que se pode fazer ? Esta na natureza delas, homem que não está preparado para isso que case com outro homem.
Nisto só uma certeza que aprendi com o tempo : as mulheres não precisam dos homens para nada e brilham por elas próprias (pelo menos a minha) e nunca se deve de deixar uma mulher atrás de nós, sempre ao nosso lado, um homem que deixe a mulher para trás a coisa mais certa que tem é um chuto no traseiro.
Complicado ? Pode ser, mas não tem mulher quem quer, tem mulher quem pode. Ou quem não gostar que vire paneleiro.
Pouco posso adiantar ao assunto, mesmo porque só tenho um exemplar do género em casa, o que torna a amostra muito pequena para o caso. No entanto, e vale o que vale, tento mantê-la com muito zelo e carinho mas no fundo acho que é ela que me mantêm a mim.
Mesmo porque não existem segredos, carinho muito que é coisa de homem, flores as vezes que é para não murchar (as mulheres que não recebem flores têm tendência para embrutecerem) e paciencia para respeitar a natureza. Sim as mulheres choram por duas razões - por tudo e por nada - , sofrem de TPM, emburram, têm sempre razão, escondem segredinhos, mas o que se pode fazer ? Esta na natureza delas, homem que não está preparado para isso que case com outro homem.
Nisto só uma certeza que aprendi com o tempo : as mulheres não precisam dos homens para nada e brilham por elas próprias (pelo menos a minha) e nunca se deve de deixar uma mulher atrás de nós, sempre ao nosso lado, um homem que deixe a mulher para trás a coisa mais certa que tem é um chuto no traseiro.
Complicado ? Pode ser, mas não tem mulher quem quer, tem mulher quem pode. Ou quem não gostar que vire paneleiro.
Que o mundo volte ao seu curso normal...
Como é bom regressar a casa...
Quem me dera que o mundo voltasse ao seu curso normal. Que a humanidade recuperasse o sentido romântico da vida, e junto com ele, os abraços demorados, as serenatas, as cartas demoradas, os apertos de mão entre cervejas e tremoços.
Como gostaria de viver num mundo mais discreto e decente onde o amor fosse uma necessidade da alma e não um capricho de pilas e pipis.
Mas o que posso fazer?
Tocou-me viver numa época insensível, desumanizada, obscena em que já nada nem ninguem respeita os sentimentos do proximo.
Quem me dera que o mundo voltasse ao seu curso normal. Que a humanidade recuperasse o sentido romântico da vida, e junto com ele, os abraços demorados, as serenatas, as cartas demoradas, os apertos de mão entre cervejas e tremoços.
Como gostaria de viver num mundo mais discreto e decente onde o amor fosse uma necessidade da alma e não um capricho de pilas e pipis.
Mas o que posso fazer?
Tocou-me viver numa época insensível, desumanizada, obscena em que já nada nem ninguem respeita os sentimentos do proximo.
Os livros desinquietam-me.
Gosto de livros mas não leio muito. São muitos aqueles que ao fim de meia duzia de paginas acabam esquecidos porque não me ensinam, não me arrebatam nem me inquietam. Mas o problema é mesmo meu, não é dos livros. Borges dizia que "um livro é uma extensão da alma e da imaginação" e poucos têm imaginação ou alma.
Gosto do mundo as avessas do Luiz Pacheco, em especial d' "O libertino que passeia por Braga". Lembro-me de inquietude que me provocou a sua escrita. Gosto dos Antigos e Novos Contos do Demonio e do Fisico Prodigioso de Jorge de Sena.Gosto de Contos Russos, do Corcodilo de Dostoievski, de Lazaro de Andreev ou A morte de Ivan Illitch de Lev Tolstoi. Gosto do imaginário de Adolfo Bioy Casares onde a dor se transforma em electricidade ou um homem troca o suicidio por um sono de cem anos, gosto do mundo tenebroso e desesperado de Celine e da America moralista e hipocrita de Roth. Ah.... e o amor.O amor dos livros é sempre maior que o amor da vida. O amor de Bendrix por Sarah descrito por Graham Green, o amor de Quixote por Dulcineia, quem é que hoje ama assim?
Gosto da magia das palavras de Drummond e da leveza cristalina de Quintana. Pelava-me pelas cronicas de Millor Fernandes e de Arnaldo Jabor.
Eça é de todos os tempos, todos os tiques e maneirismos da nossa sociedade actual estão lá. É irritantemente eterno. Eterno como são todos os grandes livros. Borges não é deste mundo, Borges é tocado pelo divino é mais que eterno. Um livro não nos engrandece em nada, remete-nos á nossa insignificancia. Um livro é eterno, nós não. Flaubert disse " morro como um cão, mas a putinha viverá para sempre" a puta seria a sua Bovary que ainda anda por aí. Eterna, que resistirá sempre á morte.
Eu, nós e os Alemães.
Nunca foi germanófilo. Da Alemanha conheço Munique, de passagem Berlim e Colonia. Não tenho nem boa, nem má impressão deles, são o que são e são bastante diferentes de nós. As vezes parecem sisudos, fechados, arrogantes e até um pouco desleixados. Nada de mais errado. São extremamente directos e não desperdiçam conversa, são organizados, metodicos, exigentes, rigorosos, definem objectivos, sabem qual o caminho a seguir, respeitam o trabalho, o conhecimento e as artes e são bons naquilo que fazem. Para além disso, são orgulhosos em ser como são e são simpaticos sem mesuras nem salamaleques. Em resumo, são sérios em tudo o que fazem.
Tanto é, que aqui á pouco tempo li um artigo na MIT Revieuw onde apresentavam em grande destaque um trabalho desenvolvido pela Escola Tecnica de Munique sobre robotica industrial como sendo de um avanço tremendo no campo da Engenharia Industrial. Outro exemplo de referencia vem da fábrica da Porsche. A tinta utilizada nos automoveis Porsche é feita á base de agua. A empresa desenvolveu um sistema de tratamento e reaproveitamento de toda a agua utilizada no departamento de pintura, assim, no fim do ano os residuos recolhidos dessas aguas não passa de uns miseros 120 Kg, ao contrario das 120 T produzidas anteriormente.
Dito isto, partilho uma pequena história:
Em tempos, no meu local de trabalho tivemos de mudar uma maquina de um espaço para outro. A maquina em causa era um bocado complicada e era bastante importante no processo do laboratório.
Contactei a empresa em Portugal para efectuar a mudança. Logo apareceram o director tecnico e o tecnico do equipamento. Dois Srs. engenheiros de fato e gravata (estes engenheiros andavam sempre de fato e gravata) que logo dissertaram sobre a complexidade do trabalho e de como demorada ia ser a operação. Passado poucos dias lá apareceram carregados de desenhos da maquina, motores, esquemas hidraulicos, esquemas electronicos e muito, mas muito papel.
Eles lá andavam num frenesim desgraçado a desmontar a maquina entre muitas pausas para café e alguns cigarros.
O tempo (que não era muito) foi passando e o trabalho emperrou...aquilo não andava nem para trás nem para a frente. A minha administração, vendo o que se passava perguntou-me o que se passava pois o processo estava a atrasar e não havia muito tempo. Lá me disseram que estavam com duvidas numa parte da montagem e que "TINHAM DE CHAMAR O ALEMÃO"
Fiquei branco...agora era preciso "vir o alemão"!!!
Facto, é que passado poucos dias lá apareceu "o alemão"...pois, "o alemão" chegou sozinho e apresentou-se para trabalhar, tive de telefonar para o representante em Portugal a perguntar qual a razão para o Tecnico deles me aparecer sozinho pois eu não o conhecia. Entretanto os Portugueses lá apareceram e foram feitas as apresentações.
O "alemão" era grande e desengonçado, com um bigode farfalhudo e de poucas conversas. Não trazia desenhos nem dossiers, trazia uma mala cheia de ferramenta. Começava a trabalhar as 08:00, parava as 10:00 e demorava 15 minutos a fumar um cigarro. Almoçava em meia-hora, muitas vezes uma sandwich que trazia do hotel, parava a meio da tarde para mais um cigarro e saía as 18:00 em ponto. Isto durante uma semana, enquanto trabalhava só falava para pedir ferramenta ou para pedir silencio que os tecnicos Portugueses pareciam umas cigarras em volta dele. Quando perguntei aos Portugueses como é que era trabalhar com ele, responderam:
" - F...., o Alemão trabalha com'o c.....! E nós temos de andar atras dele!".
Mas numa semana a maquina ficou a funcionar, como nunca tinha funcionado antes...
Não é preciso dizer mais nada, pois não?
Tanto é, que aqui á pouco tempo li um artigo na MIT Revieuw onde apresentavam em grande destaque um trabalho desenvolvido pela Escola Tecnica de Munique sobre robotica industrial como sendo de um avanço tremendo no campo da Engenharia Industrial. Outro exemplo de referencia vem da fábrica da Porsche. A tinta utilizada nos automoveis Porsche é feita á base de agua. A empresa desenvolveu um sistema de tratamento e reaproveitamento de toda a agua utilizada no departamento de pintura, assim, no fim do ano os residuos recolhidos dessas aguas não passa de uns miseros 120 Kg, ao contrario das 120 T produzidas anteriormente.
Dito isto, partilho uma pequena história:
Em tempos, no meu local de trabalho tivemos de mudar uma maquina de um espaço para outro. A maquina em causa era um bocado complicada e era bastante importante no processo do laboratório.
Contactei a empresa em Portugal para efectuar a mudança. Logo apareceram o director tecnico e o tecnico do equipamento. Dois Srs. engenheiros de fato e gravata (estes engenheiros andavam sempre de fato e gravata) que logo dissertaram sobre a complexidade do trabalho e de como demorada ia ser a operação. Passado poucos dias lá apareceram carregados de desenhos da maquina, motores, esquemas hidraulicos, esquemas electronicos e muito, mas muito papel.
Eles lá andavam num frenesim desgraçado a desmontar a maquina entre muitas pausas para café e alguns cigarros.
O tempo (que não era muito) foi passando e o trabalho emperrou...aquilo não andava nem para trás nem para a frente. A minha administração, vendo o que se passava perguntou-me o que se passava pois o processo estava a atrasar e não havia muito tempo. Lá me disseram que estavam com duvidas numa parte da montagem e que "TINHAM DE CHAMAR O ALEMÃO"
Fiquei branco...agora era preciso "vir o alemão"!!!
Facto, é que passado poucos dias lá apareceu "o alemão"...pois, "o alemão" chegou sozinho e apresentou-se para trabalhar, tive de telefonar para o representante em Portugal a perguntar qual a razão para o Tecnico deles me aparecer sozinho pois eu não o conhecia. Entretanto os Portugueses lá apareceram e foram feitas as apresentações.
O "alemão" era grande e desengonçado, com um bigode farfalhudo e de poucas conversas. Não trazia desenhos nem dossiers, trazia uma mala cheia de ferramenta. Começava a trabalhar as 08:00, parava as 10:00 e demorava 15 minutos a fumar um cigarro. Almoçava em meia-hora, muitas vezes uma sandwich que trazia do hotel, parava a meio da tarde para mais um cigarro e saía as 18:00 em ponto. Isto durante uma semana, enquanto trabalhava só falava para pedir ferramenta ou para pedir silencio que os tecnicos Portugueses pareciam umas cigarras em volta dele. Quando perguntei aos Portugueses como é que era trabalhar com ele, responderam:
" - F...., o Alemão trabalha com'o c.....! E nós temos de andar atras dele!".
Mas numa semana a maquina ficou a funcionar, como nunca tinha funcionado antes...
Não é preciso dizer mais nada, pois não?
Breve nota para o meu avô João.
O meu avô João faleceu. Partiu para junto do Pai e está sentado ao seu lado. Do nada veio, para o nada foi. É assim desde o principio do tempo e será sempre a única certeza que temos: No fim voltaremos sempre para o útero de nossas mães.
O avô João veio ao mundo pobre e deixa o mundo mais pobre. Em vida foi um mestre e um príncipe. Era um homem bom, um lutador, empreendedor, amigo do seu amigo, de um amor incondicional pela família, integro, inteligente, inquebrável, tinha uma fé inabalável no seu saber, um homem de princípios, amava e respeitava o seu trabalho e dos outros. Um homem com um coração enorme que deixou marca neste mundo e naqueles que com ele conviveram.
O seu amor pela família era incondicional. Gostava de ter sempre uma palavra, quase sempre a ultima, em tudo o que dizia respeito todos nós. Todos sentíamos a sua presença. O amor do avô era rijo, não era dado a mesuras, era presente e afirmativo dava-nos energia e caminhos, deu-nos tudo o que alguem pode dar aos seus. Gostava de almoçar aos Domingos com a familia e á hora certa era sempre o primeiro a sentar e esperava que o servissem.
Na vida era um principe. Levantava-se muito cedo para todos os dias fazer a barba, andava sempre de cabelo bem cortado. Gostava de encomendar roupa num alfaiate da Amadora. Era vaidoso e gostava de se arranjar. Gostava de passear conhecia todos os cantos de Portugal, tinha na caça o seu maior vicio, gostava de sair as quintas-feiras de Lisboa e regressar aos Domingos das caçadas com os amigos em Espanha. Se não era a caça, era o Sporting. Todos os Domingos lá estava-mos nós no velhinho Estadio de Alvalade para mais um jogo do nosso SCP, tambem gostava de pegar nos amigos e ir almoçar á Mealhada e no fim lá trazia um leitão para o jantar.
Tinha vaidade nos seus "Mercedes". Lembro-me do orgulho com que me disse quando em 2000 comprou o seu SL. Disse o avô: " o teu avô comprou o primeiro carro destes da freguesia"e de como gostava de passear nele. Nas viagens mais longas, os olhos sorriam de orgulho á medida que ultrapassava os outros automobilistas gostava de dizer com um enorme sorriso : " quem tem força é que arroja peso" e sempre chegamos seguros aos nossos destinos.
Viajou, foi á Suiça ver o SCP, a Israel, a Italia,a Inglaterra e á Escocia, aos EUA e ao Canada e não sei se mais a algum sitio. Sei que se apaixonou pela Escocia e pelo Canada e que Nova Iorque e Londres eram cidades "sujas" e cheias de "gente esquisita".
O avô João nunca saía de casa sem a carteira nem sem o relogio. Mesmo nos ultimos meses de vida, já doente, os unicos pedidos que fazia era "onde está a minha carteira e o meu relogio", era doente com as horas e nunca chegava atrasado. Ficava com mau feitio se alguem se atrasasse e demonstrava-o. Lembro-me de ter marcado uma reunião com alguem que se atrasou. Foi embora, encontrou essa pessoa enquanto abandonava o local, ela desfez-se em desculpas mas ele não voltou atras tinha mais que fazer e o outro para a proxima que viesse mais cedo.
Era um mestre na sua arte. E não havia quem o contrariasse, arrumava qualquer questão com uma frase que muitas vezes ouvi : "digo-te como se faz e explico-te porquê", poucas vezes se enganou. Na sua empresa era rigoroso com os pagamentos, valorizava quem com ele trabalhava dizia muitas vezes "quem trabalha tem de receber" e muito sofreu a sua secretária, a Dona Celeste, com a pressa dos pagamentos. Enfrentava todos os problemas de peito aberto e era sempre o primeiro a dar o peito as balas; dizia muitas vezes " os problemas são para se enfrentar e resolver" e sempre assim foi. Na hora da sua partida, muitos dos presentes alem de lamentarem a sua morte, recordavam o seu saber e os seus ensinamentos. Junto com o meu tio Antonio, construiu uma vida de que nos podemos orgulhar e apesar das diferenças entre ambos sempre souberam colocar o bem comum em primeiro lugar, e o sangue sempre falou mais alto. Hoje acredito que estão a resmungar um com o outro sobre qualquer coisa que um devia de ter feito e não fez.
Na hora da partida foi um principe. Sempre sereno com a doença, aceitando-a. Gostava de vir á rua, mesmo na cadeira de rodas, sempre bem vestido e sem esquecer a carteira e o relogio. A todos sorria e dentro da sua debilidade tentava manter alguma comunicação.
Partiu sereno e em paz. Eu tenho muito orgulho em ter um avô como o Sr. João. Um mestre e um principe da vida. Até um dia avô João.
O avô João veio ao mundo pobre e deixa o mundo mais pobre. Em vida foi um mestre e um príncipe. Era um homem bom, um lutador, empreendedor, amigo do seu amigo, de um amor incondicional pela família, integro, inteligente, inquebrável, tinha uma fé inabalável no seu saber, um homem de princípios, amava e respeitava o seu trabalho e dos outros. Um homem com um coração enorme que deixou marca neste mundo e naqueles que com ele conviveram.
O seu amor pela família era incondicional. Gostava de ter sempre uma palavra, quase sempre a ultima, em tudo o que dizia respeito todos nós. Todos sentíamos a sua presença. O amor do avô era rijo, não era dado a mesuras, era presente e afirmativo dava-nos energia e caminhos, deu-nos tudo o que alguem pode dar aos seus. Gostava de almoçar aos Domingos com a familia e á hora certa era sempre o primeiro a sentar e esperava que o servissem.
Na vida era um principe. Levantava-se muito cedo para todos os dias fazer a barba, andava sempre de cabelo bem cortado. Gostava de encomendar roupa num alfaiate da Amadora. Era vaidoso e gostava de se arranjar. Gostava de passear conhecia todos os cantos de Portugal, tinha na caça o seu maior vicio, gostava de sair as quintas-feiras de Lisboa e regressar aos Domingos das caçadas com os amigos em Espanha. Se não era a caça, era o Sporting. Todos os Domingos lá estava-mos nós no velhinho Estadio de Alvalade para mais um jogo do nosso SCP, tambem gostava de pegar nos amigos e ir almoçar á Mealhada e no fim lá trazia um leitão para o jantar.
Tinha vaidade nos seus "Mercedes". Lembro-me do orgulho com que me disse quando em 2000 comprou o seu SL. Disse o avô: " o teu avô comprou o primeiro carro destes da freguesia"e de como gostava de passear nele. Nas viagens mais longas, os olhos sorriam de orgulho á medida que ultrapassava os outros automobilistas gostava de dizer com um enorme sorriso : " quem tem força é que arroja peso" e sempre chegamos seguros aos nossos destinos.
Viajou, foi á Suiça ver o SCP, a Israel, a Italia,a Inglaterra e á Escocia, aos EUA e ao Canada e não sei se mais a algum sitio. Sei que se apaixonou pela Escocia e pelo Canada e que Nova Iorque e Londres eram cidades "sujas" e cheias de "gente esquisita".
O avô João nunca saía de casa sem a carteira nem sem o relogio. Mesmo nos ultimos meses de vida, já doente, os unicos pedidos que fazia era "onde está a minha carteira e o meu relogio", era doente com as horas e nunca chegava atrasado. Ficava com mau feitio se alguem se atrasasse e demonstrava-o. Lembro-me de ter marcado uma reunião com alguem que se atrasou. Foi embora, encontrou essa pessoa enquanto abandonava o local, ela desfez-se em desculpas mas ele não voltou atras tinha mais que fazer e o outro para a proxima que viesse mais cedo.
Era um mestre na sua arte. E não havia quem o contrariasse, arrumava qualquer questão com uma frase que muitas vezes ouvi : "digo-te como se faz e explico-te porquê", poucas vezes se enganou. Na sua empresa era rigoroso com os pagamentos, valorizava quem com ele trabalhava dizia muitas vezes "quem trabalha tem de receber" e muito sofreu a sua secretária, a Dona Celeste, com a pressa dos pagamentos. Enfrentava todos os problemas de peito aberto e era sempre o primeiro a dar o peito as balas; dizia muitas vezes " os problemas são para se enfrentar e resolver" e sempre assim foi. Na hora da sua partida, muitos dos presentes alem de lamentarem a sua morte, recordavam o seu saber e os seus ensinamentos. Junto com o meu tio Antonio, construiu uma vida de que nos podemos orgulhar e apesar das diferenças entre ambos sempre souberam colocar o bem comum em primeiro lugar, e o sangue sempre falou mais alto. Hoje acredito que estão a resmungar um com o outro sobre qualquer coisa que um devia de ter feito e não fez.
Na hora da partida foi um principe. Sempre sereno com a doença, aceitando-a. Gostava de vir á rua, mesmo na cadeira de rodas, sempre bem vestido e sem esquecer a carteira e o relogio. A todos sorria e dentro da sua debilidade tentava manter alguma comunicação.
Partiu sereno e em paz. Eu tenho muito orgulho em ter um avô como o Sr. João. Um mestre e um principe da vida. Até um dia avô João.
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